As Estelas Funerárias do Museu de Vila do Bispo

As Estelas Funerárias do Museu de Vila do Bispo

A investigação arqueológica desenvolvida no território concelhio de Vila do Bispo, sobretudo na última década e no âmbito do projeto municipal “Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo”, permitiu assinalar diversas evidências que comprovam uma expressiva densidade de vestígios de presença humana durante a Idade Média, designadamente núcleos de povoamento, como casais agrícolas e alcarias com áreas de influência consideráveis, zonas de exploração agrícola e restos de atividades relacionadas com recursos marinhos, mas também alguns representativos testemunhos da diversidade cultural, da coexistência religiosa e de distintas práticas funerárias características desta época.

O Museu de Vila do Bispo - Celeiro da História reúne, à sua guarda, três estelas funerárias medievais, previamente depositadas na Igreja de Nossa Senhora da Conceição - Matriz de Vila do Bispo, hoje patentes ao público na sua exposição de longa duração. As peças foram trasladadas em 2023, na sequência de “Acordo Específico de Colaboração entre o Município de Vila do Bispo e a Fábrica da Igreja Paroquial de Vila do Bispo para empréstimo de longa duração de objetos arqueológicos do acervo da Igreja Matriz de Vila do Bispo e respetiva valorização expositiva no Museu Municipal de Vila do Bispo - Celeiro da História”, protocolo ratificado no dia 22 de janeiro de 2023, Dia do Município de Vila do Bispo - Dia de São Vicente.

Comecemos por descrever duas estelas tabulares discoides, provavelmente recuperadas no antigo cemitério do adro da Igreja Matriz de Vila do Bispo e previamente integradas na coleção de Arte Sacra deste templo católico, organizada pelo Padre Manuel Madeira Clemente (1947-1989), que, durante 42 anos, entre 1947 e 1989, serviu as paróquias de Vila do Bispo, da Raposeira e de Sagres.

Esculpidas em grés de Silves de origem local, funcionavam como marcos funerários colocados, verticalmente, na cabeceira de sepulturas cristãs, em cemitérios habitualmente dispostos nos adros das igrejas paroquiais. Genericamente, enquadram-se em cronologias medievais, sendo datáveis dos séculos XIII-XIV, conhecendo-se largas centenas de exemplares um pouco por todo o País e em Espanha.

Não existindo registo das suas origens, a sua associação ao território é bastante plausível, tanto pelo próprio material utilizado no seu talhe, disponível localmente e conhecido tradicionalmente por “pedra farinheira” (arenito vermelho regionalmente designado por “grés de Silves”), tanto pelos antecedentes históricos, uma vez que algumas das localidades existentes no atual Concelho de Vila do Bispo já existiam nos anos de 1323 e de 1374, nomeadamente, Budens, Figueira e Raposeira.

Ainda que a Igreja Matriz de Vila do Bispo, cujo orago é Nossa Senhora da Conceição, apenas tenha sido edificada nos finais do século XVI, esta poderá ter acolhido depósitos funerários de templos mais antigos pré-existentes nas proximidades, eventualmente provenientes da Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, erguida 4km a nascente, nas paisagens rurais da Raposeira, da Ermida de Santo António, localizada 3.6km a SO, ou da desaparecida Igreja da Senhora do Amparo, outrora implantada a escassos 600m a SSO da Igreja Matriz de Vila do Bispo.

Na leitura de um Auto de Câmara, manuscrito no dia 30 de janeiro de 1805 e conservado no Arquivo Municipal de Vila do Bispo, podemos encontrar uma referência direta à Igreja da Senhora do Amparo, templo eventualmente afetado em consequência do Terramoto de 1755, que, por não ter sido reabilitado, acabou por se perder com o passar dos tempos:

«Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinco, sendo em trinta de Janeiro de mil oitocentos e cinco anos, nesta Vila do Bispo e Paços do Concelho da mesma vila, aí se achava o Juiz Ordinário dela Filipe Correia Tello e mais vereadores e Procurador do Concelho, aí se acharem em Auto Solene de Câmara conforme a Lei deferindo aos requerimentos que pelas partes lhes fossem apresentados e requeridos; e nela condenaram Bernarda Pereira, viúva, em cem reis, por dar fé o Fiel da Renda do Verde lhe encoimara duas Rezes nos trigos atrás do Outeiro; e condenaram a António José Barata, porque na Corrida dos Oficiais da Câmara feita no dia de hoje lhe acharam uma marrão [porca jovem] solta junto à Igreja da Senhora do Amparo e lha condenaram em cinquenta reis e mais custas; e a Ana Joaquina, viúva, dois porcos soltos no Rossio, em cem reis e nas custas; a Miguel Dias, em cinquenta reis, por acharem um porco solto no Rossio, e nas custas; dois porcos de Filipe Correia Tello em cem reis e nas custas; quatro Rezes de José António Lerias por andarem nos abertos e o condenaram em duzentos reis; e duas rezes de Francisco Marreiro Pacheco, em Currais e nas custas por andarem nas mesmas abertas; e logo mandaram arrematar a Renda do Verde e Almotaçarias por oito mil reis a Joaquim Duarte, Alcaide; e ao mesmo a Renda dos Aferimentos por dois mil e quatrocentos reis, dando por fiança desta o seu ordenado e pela do verde o seu forno de cozer pão; e mandaram fazer este auto que o houveram por acabado por não haver mais o que deferir. Eu Marcelino Xavier Brandão, Escrivão da Câmara, que o escrevi e assinei» (Auto de Câmara, 30 janeiro 1805, Fólio 15v).

Quanto à Ermida de Santo António, as informações disponíveis apontam para que as suas origens se situem na Idade Média, encontrando-se implantada no antigo itinerário de peregrinação ao Cabo de São Vicente. O Infante D. Henrique, encontrando-a dessacralizada, terá mandado reabilitá-la ao culto, sendo mais tarde reconstruída, em 1890, como atesta a lápide ainda existente sobre a porta de entrada, onde se pode ler “Reedificado 1890 P.e A B. Vieira”.

Voltando às nossas estelas, presumivelmente originárias de antigos cemitérios desativados, associados aos referidos templos, apresentam-se como dois monumentos funerários com formas características entre os inúmeros paralelos conhecidos para a época, exibindo corpo de contorno circular, perfil retangular e bases paralelepipédica e trapezoidal, um todo que, observado como “pé e cabeça”, tem sido interpretado, entre alguns autores, como representações esquemáticas da forma humana, ou seja, esculturas antropomórficas.

Estes nossos exemplares apenas revelam aspetos decorativos na sua face frontal (anverso), designadamente símbolos cruciformes gravados em baixo-relevo na superfície de pedra. O primeiro dos exemplares, mais erodido e provavelmente mais antigo (século XIII?), conserva dimensões de 65,5x32cm, apresenta base paralelepipédica e exibe uma Cruz Pátea de orientação oblíqua, com extremidades expandidas, em forma de “cunha”. Este símbolo é comummente associado a sepulturas de antigos monges-cavaleiros Templários, que, em Portugal, deram origem à Ordem de Cristo. Por seu turno, o segundo exemplar, de superfícies bem conservadas, provavelmente já do século XIV, conserva dimensões de 53,5x32cm, apresenta base trapezoidal e exibe uma Cruz Latina, finamente gravada em baixo-relevo, completa e bem elaborada, com extremidades dos braços de corte oblíquo e descrevendo o pormenor de uma base triangular.

Nota para uma outra estela integrada na coleção do Museu Municipal de Lagos - Dr. José Formosinho, que, segundo informações prestadas por João Velhinho, da extinta Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Vila do Bispo, “parece que poderia ser proveniente do Concelho de Vila do Bispo”. Trata-se, também, de uma estela tabular discoide, fragmentada, com motivo de hexalfa em relevo, estrela de seis pontas também conhecida por “Estrela de David” ou “Selo de Salomão”. A peça foi esculpida em grés de cor avermelhada, atestando uma sepultura judaica. Esta informação encontra-se referenciada no trabalho “Entre Muralhas e Templos. A intervenção no largo de Santa Maria da Graça Lagos (2004-2005)” (Díaz-Guardamino e Móran, 2008, p. 96).

O acervo expositivo do Museu de Vila do Bispo - Celeiro da História conta como uma outra peça de âmbito funerário, também proveniente da Igreja Matriz de Vila do Bispo, descoberta no decurso de obras de conservação realizadas nos inícios dos anos de 1960, pela então Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), no âmbito do programa nacional de Comemorações do V.º Centenário da Morte do Infante D. Henrique (1460-1960). Trata-se de uma rara tampa de sarcófago que exibe um conjunto de inscrições, gravadas em alto-relevo, que remetem para uma eventual sepultura judaica.

No “Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais”, publicado em março de 1962 e inteiramente dedicado à Igreja Matriz de Vila do Bispo, podemos encontrar algumas imagens e uma breve nota sobre as circunstâncias da descoberta desta laje sepulcral, incluindo uma proposta interpretativa para a sua origem:

«A capela seguinte é a do Senhor dos Passos, imagem de boa escultura, restaurada em 1955; era outrora da invocação de S. Vicente. O Retábulo de madeira, com alguma talha, singela. No chão, estava a curiosa pedra sepulcral que ostenta, além de outros motivos de ornamentação, uma lança ou dardo, tendo na sua base o vulgarmente chamado signo de Saimão, ou Sanselimão [Salomão]. Seria acaso a sepultura de um hebreu, sugerindo-se até a hipótese de ter sido a jazida do médico israelita do Infante» (DGEMN, 1962, p. 14).

Datável dos finais do século XIV, inícios do século XV, com alguns paralelos de características próximas por nós identificados, designadamente uma peça originária da necrópole medieval da Igreja de Santa Maria de Sintra, atualmente depositada no MASMO - Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, esta nossa estela apresenta-se como uma tampa de túmulo talhada em calcário, de forma subrectangular chanfrada lateralmente, mais larga na cabeceira, com 73cm, relativamente aos pés, com 53cm, sugerindo uma forma antropomórfica. O comprimento total do monólito mede-se em 1,56m, com uma espessura média de 14cm. Ao centro e longitudinalmente, exibe uma lança de base triangular com uma hexalfa no interior, gravada numa moldura circular. A lança aponta para uma composição decorativa, também esculpida em alto-relevo, um conjunto de cinco círculos, com um círculo central preenchido, no interior, por uma flor com botão e sete pétalas. No topo, centrado e destacado relativamente a este conjunto, surge um pequeno círculo, desta feita gravado em baixo-relevo.

Terá sido talhada para assinalar o sepulcro de um nobre de origem hebraica? Terá sido dedicada ao “médico israelita do Infante”?

Esta interessante pedra tumular necessita de estudo mais aprofundado, no que respeita à mensagem simbólica implícita na sua trama decorativa. Quanto ao seu original contexto funerário, dificilmente será desvendado, a não ser por via de algum esclarecedor documento que venha a ser revelado nas investigações arquivísticas em curso.

Por fim, na exposição de longa duração do Museu de Vila do Bispo - Celeiro da História, apresentamos um conjunto de materiais arqueológicos exumados, em 1987, na necrópole moçárabe do Padrão, na Raposeira. Disposta, precisamente, junto ao menir do Padrão, monumento pré-histórico erguido há cerca de 6.500 anos, esta necrópole medieval foi investigada por Mário Varela Gomes, sendo composta por dez túmulos de diferentes tipologias, integrados em cronologias da Antiguidade Tardia, em torno dos séculos VIII-IX (Gomes e Paulo, 2011).

Contrariando os determinismos e as condicionantes de uma geografia extrema e periférica, imposta pelo grande promontório do extremo sudoeste europeu, o território de Vila do Bispo assumiu-se, ao longo da História, como um privilegiado entreposto marítimo entre o Mediterrâneo e o Atlântico, entre a Europa, África e as Américas, emancipando-se como uma singela capital multicultural feita de gentes de aquém e de além-mar, um fim-do-Mundo onde se sonharam novos mundos!

Nesta terra de mar feita, moldou-se uma matriz genética argamassada pelo Tempo, com pilares erguidos por diversos povos, com tijolos legados por distintas culturas, costumes, línguas e religiões.

Hoje, 40% da população do Concelho de Vila do Bispo tem origem estrangeira, realidade que confere diversidade humana, garante vitalidade comunitária e mitiga as crónicas vicissitudes de um território de baixa densidade populacional. Na verdade, ao longo dos tempos, em particular durante a Idade Média, Vila do Bispo revelou-se como um atrativo, ‘miscigenizante’ e aglutinador epicentro sociocultural, onde prevaleceu a partilha, a convivência e a tolerância...

BIBLIOGRAFIA REFERENCIADA:

DÍAZ-GUARDAMINO, Marta; MÓRAN, Elena (2008) – “Entre Muralhas e Templos. A intervenção arqueológica no Largo de Santa Maria da Graça, Lagos (2004-2005)”. Coleção Laccobriga, 01. Lagos: Câmara Municipal de Lagos, p. 96.
https://www.academia.edu/211308/_2008_Entre_Muralhas_e_Templos_A_interven%C3%A7%C3%A3o_arqueol%C3%B3gica_no_Largo_de
_Santa_Maria_da_Gra%C3%A7a_Lagos_2004_2005_Between_City_walls_and_Temples_The_archaeological_intervention_in_the_Largo
_de_Santa_Maria_de_Gra%C3%A7a_Lagos_2004_2005_


GOMES, Mário Varela; PAULO, Luís Campos (2011) – “A necrópole visigótica do Padrão (Raposeira, Vila do Bispo)”. In O Arqueólogo Português, V.ª série, vol. 1. Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia, pp. 591-656
https://www.academia.edu/67533805/A_necr%C3%B3pole_visig%C3%B3tica_do_Padr%C3%A3o_Raposeira_Vila_do_Bispo_

DGEMN (1962) – “Igreja Matriz de Vila do Bispo”. Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, N.º 107, Lisboa: Ministério das Obras Públicas.
http://dgemn-digital.wikidot.com/indice-dos-boletins

Visite-nos no Museu de Vila do Bispo - Celeiro da História e saiba mais sobre esta história da nossa História 🙂

Investigação, texto & fotografia de Ricardo Soares
@rqueólogo & museólogo
Município e Museu de Vila do Bispo - Celeiro da História