SAGRADO
a MORADA dos DEUSES

A vocação mágico-religiosa deste nosso território revelou-se, ao longo dos tempos, como uma das suas características mais identitárias. Desde as paisagens megalíticas da Pré-história, passando pela Antiguidade Greco-Romana e pela Idade Média, o místico Promontório, atualmente conhecido por Cabo de São Vicente, assumiu-se como um lugar de forte vocação espiritual. As primeiras referências escritas sobre a finisterra mediterrânica remontam ao século VI a.C., devendo-se a precursoras explorações marítimas levadas a cabo por antigos navegantes gregos. Além das “Colunas de Hércules”, designação pela qual era evocado o Estreito de Gibraltar, estes exploradores penetraram num mar misterioso até atingirem o fim do mundo conhecido, devendo-se a estes épicos argonautas a descoberta desta nossa terra. Derradeira fronteira do Oceano incógnito, o Cabo é então ‘batizado’ como Hieron Akroterion, denominação grega depois traduzida para o latim, como Promunturium Sacrum, e para o português como Promontório Sagrado. Entretanto, ao tempo do domínio muçulmano da Península Ibérica, o Cabo era designado como Tarf al-Gharb. Relativamente ao topónimo “Sagres”, este resulta de uma herança linguística com origens na palavra latina Sacrum e na palavra árabe Xaqris.
Segundo a tradição católica, o antigo Promontório Sagrado terá acolhido, por volta do ano de 778, as relíquias do mártir Vicente de Saragoça, trasladadas de Valência no âmbito da invasão da Península Ibérica pelo califado omíada. Nessa época, terá existido nas paisagens do Promontório, desde então chamado de Cabo de São Vicente, um templo dedicado ao culto vicentino, uma pequena ermida conhecida, entre os árabes, por Kanisat al-Gurab, e por Ermida dos Corvos entre os cristãos moçárabes, um dos santuários mais concorridos nas rotas de peregrinação católica da Península Ibérica, cem anos antes do surgimento do culto de Santiago de Compostela. Em 1173, por vontade de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, as relíquias de São Vicente são novamente trasladadas, desta feita para Lisboa. Em Sagres, terá ficado um pequeno osso do santo, entretanto encastrado num relicário de prata que se encontra hoje à guarda da Igreja Matriz de Vila do Bispo, sendo objeto de grande devoção entre a Comunidade Local ...